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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A tecnologia no cotidiano III

Mais um exemplo da presença da tecnologia no cotidiano vem de um período em que estive responsável, como professor de Educação Física, pela política de esporte e lazer de um município de aproximadamente três mil habitantes do interior de Minas Gerais, entre os anos de 2005 e 2006. Rio Doce é uma cidade, como tantas outras, pobre e desigual, que possui uma população predominantemente rural. No município, poucos canais abertos de televisão estão disponíveis e poucas casas têm acesso à TV por assinatura, que só é disponível via satélite. A instalação de antenas de telefonia móvel é uma promessa distante e existem poucos pontos de acesso à Internet disponibilizados pela prefeitura, apenas um deles na escola municipal. Ainda assim, por várias vezes observei que crianças e jovens verbalizavam um preciso e extenso conhecimento acerca de assuntos aparentemente distantes da sua realidade cotidiana: detalhes técnicos de carros importados, organização urbana, administração de empresas, estratégias militares, conhecimentos geográficos, políticos, esportivos. Como não indagar sobre a origem e abrangência de tais conhecimentos?

Busquei nos diálogos com os alunos entender o fabuloso conhecimento esportivo que eles traziam de fora do ambiente escolar. No caso específico do futebol, eles sabiam não só o nome dos principais campeonatos e times de futebol do mundo, como conheciam a escalação dos jogadores de cada time, as cores dos uniformes, a bandeira de cada clube. Diziam o país de origem de cada atleta e suas características técnicas, táticas e físicas. Detalhavam a posição em campo, a estatura, peso, fisionomia, perna mais habilidosa e até qual jogador do banco de reservas é o mais indicado para substituição em caso de lesão do titular. Arranjos táticos complexos eram esmiuçados em suas falas: diferentes esquemas táticos, organização da defesa e ataque, adequação do sistema de jogo de acordo com as características do time oponente. A transação de jogadores a cada temporada também era acompanhada. As regras eram dominadas e interpretadas.

Uma explicação que passasse pela exaltação da “pátria de chuteiras” me pareceu improvável quando percebi que os alunos conheciam também detalhes do basquete, do tênis e do beisebol, esportes improváveis em tais terras interioranas. As aulas de Educação Física também não eram a origem daquele saber. Fui o primeiro professor dessa disciplina a atuar na rede municipal de ensino. Indagados pela origem de tais conhecimentos, a resposta foi simples e direta: “professor, aprendemos no vídeo game”. Como quase nenhuma das crianças e jovens possuía o aparelho em casa, eles trabalhavam fora do horário escolar vendendo picolés, entregando pães e ajudando na manutenção de hortas e pequenas criações. Eles então repassavam parte do dinheiro aos pais e usavam o restante para alugar a hora de uso de aparelhos de vídeo game em uma pequena videolocadora da cidade. O horizonte do conhecimento ampliado para além dos limites da pequenina cidade a partir dos jogos eletrônicos.

Desde então não consigo deixar de pensar nos jogos digitais como novos álbuns de figurinhas impulsionados pela interatividade que a tecnologia proporciona. O desafio de “atuar” como os melhores do mundo da bola é uma experiência cada vez mais interativa e busca ser fidedigna, à imagem da realidade. Qual o limite dos jogos digitais que criam e recriam, cada dia com mais realismo de imagens e sensações, o mundo que se quiser? Dirigir carros, praticar esportes radicais, administrar cidades, comandar impérios e exércitos de diferentes épocas da história, viver uma vida cotidiana perfeita. Longe do estigma de diversão solitária, os jogos cada vez mais abrem a possibilidade de interação com outros jogadores em rede, estejam eles no mesmo console de vídeo game, no computador ao lado ou do outro lado do oceano.

Um comentário:

Silvio disse...

É Rogério, o rádio sempre cumpriu esse papel nesse Brasil grande...não sabemos quem mais cumprirá, mas é legal perceber que essas distâncias podem diminuir sem causar "estragos" no cotidiano dos "interiores".
PS: O blog está muito legal!